Boris Casoy: "Com um pronunciamento de vinte minutos, no auditório do ministério da Fazenda, o ex-ministro Ricupero despediu-se ontem do poder. Foi um melancólico pedido de desculpas à nação. Vejam os trechos principais:"
Ricupero: "Fui vítima de uma falha eletrônica. Aguardava o momento de começar a 25ª. Entrevista daquele dia em que o real completava dois meses. Estava exausto."
Ricupero: "Fui provavelmente vítima, além do cansaço físico, de um processo em que a excessiva exposição na mídia e ao calor popular inflaram minha vaidade. Assumo inteira responsabilidade por aquele momento de fraqueza que me levou a dizer palavras que não refletem o que penso nem o que sinto. Em alguns daqueles comentários nem eu mesmo me reconheço. [...]"
Comentário de Boris Casoy: "Esse mea-culpa do ministro, embora não o redima de suas declarações no mínimo infelizes, mostra que como ser humano falível como todos nós ele agiu com muita coragem e dignidade com esta declaração. Sábado, nós aqui no TJBrasil, fomos duros com Ricupero. Ele causou uma enorme decepção não só a nós, como a toda população brasileira. Mas dentro desse furacão, na tormenta, ele acabou mostrando sua faceta maior que é a de um ser humano que quer acertar. Falhou, humildemente reconheceu as suas falhas e mostra que quer aceitar e tem princípios. Aliás, ele tem um passado de serviços prestados ao país que não pode ser esquecido."
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O mea-culpa, ao qual Boris se refere, é a fala de auto-avaliação que Ricupero faz de sua atuação no dia em que ‘a parabólica pega’, na qual ele se apresenta como vítima de ‘falha eletrônica’, mas na verdade esta simplesmente surpreendeu uma falha dele. Ele vai se apresentando como vítima de ‘falha eletrônica’, mas na verdade esta simplesmente surpreendeu uma falha dele. Ele vai se apresentando como vítima, apontando os próprios erros e não deixando para terceiros esta avaliação. Ele mesmo faz seu julgamento e, sem dúvida, muito calcado nas repercussões que a mídia provocou com o escancaramento das falhas dele. Nesse processo de espetáculo, ele é um ator que, avaliando sua atuação, não deixa brecha ao julgamento natural por parte de terceiros.
É um mea-culpa em função da mídia, mesmo porque, se não fosse pela ‘falha eletrônica’, nada disso teria vindo à baila. O julgamento é também feito por Boris, que se imbui de sua própria autoridade para absolver o ministro. Ao contrário do que deveria ser a preocupação primordial, as discussões sobre episódios que envolvem escuta telefônica, grampos telefônicos etc. são com alguma freqüência desviadas para a questão ética do procedimento utilizado, esquecendo-se o conteúdo do que foi falado e escutado; a impressão que se tem é que, se fosse possível, esta parte ficaria de fora. [...]
Assim, diante do ‘ex-ministro’ de Boris, o espectador, atento ou não, já é pensado como dessubjetivado, assistindo aos fatos se desenrolando em função da dominação e da aplicação das leis midiáticas, que o conduzem na direção de uma exoneração ou de um pedido de demissão. Mesmo que nada disso tivesse ainda acontecido, praticamente já tinha sido anunciado.
(SZPACENKOPF, Maria Iabel Oliveira. O Olhar do Poder: a montagem branca e a violência no espetáculo telejornal. RJ: Civilização Brasileira, 2003. pp. 291-5)
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