Se por um lado Boris Casoy diz "quem tem alguns ministros como cabos eleitorais, não precisa de inimigos", por outro, Boris Casoy acusa o PT de estar se aproveitando do caso, transformando-o num fato político que favoreça o partido.
A reação de FHC ao episódio Ricupero é comentada por Boris, que fala com autoridade, o que se percebe pelo uso que faz das marcas ‘é claro’, ‘é um azar na campanha’ ‘ ‘evidentemente’. Esta autoridade possibilita o seu ato falho ao chamar Ricupero de ex-ministro:
Boris Casoy: "Você vê que facialmente Fernando Henrique parece não ter acusado o golpe, que é um golpe duro, no Plano Real, na sua candidatura, porque pegou o coração do Plano Real, que é o ministro Ricupero. Não se sabe as conseqüências, mas que é um azar na campanha, sob o ponto de vista do PSDB, é. Fernando Henrique atrasou seus compromissos em Porto Alegre, ficou no hotel acompanhando de perto os acontecimentos e é claro que conversou com o presidente Itamar e com o ex-ministro (gagueja e conserta), ou, o ministro Ricupero. O incidente pode bater evidentemente em sua candidatura. Nem ele nem Itamar desejam isso. Claro que eles estão assim (faz um gesto com os dois dedos) e evidentemente por telefone rapidamente traçou-se hoje uma estratégia de comportamento e de resposta pró-ataques."
Se nesse trecho Ricupero já foi demitido por Boris – através de um ‘ex-ministro’ –, no próximo Boris se autoriza a passar o ministro à condição de puro cidadão, de ‘sr. Ricupero’:
Boris Casoy: "Você viu? Eu acho que o ministro Rubens Ricupero não vai aparecer mais no Fantástico este fim de semana fazendo pregação sobre o Plano Real. Olha, é preciso separar o Plano Real em si desse diálogo surpreendente entre o ministro Rubens Ricupero e o repórter da Rede Globo, Carlos Monforte. Depois dessas informações, o Sr. Ricupero perde qualquer condição para continuar no Ministério da Fazenda. Publicamente humilde e sóbrio, o ministro acabou exibindo uma faceta lamentável [...]."
Boris Casoy praticamente anuncia Pedro Malan como sendo o próximo ministro [...].
No Fantástico de 04.09.94, Ricupero apareceu não mais como ministro. Esse programa apresentou uma retrospectiva da boa atuação de Rubens Ricupero como ministro da Fazenda e fragmentos de se discurso de despedida.
O TJBrasil de 05.09.94, dia seguinte à renúncia do ministro, inicia a edição anunciando a escolha de Ciro Gomes para ministro da Fazenda [...].
(SZPACENKOPF, Maria Iabel Oliveira. O Olhar do Poder: a montagem branca e a violência no espetáculo telejornal. RJ: Civilização Brasileira, 2003. pp. 283-9)
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